Murmuração, Rebelião e as Consequências da Incredulidade
Em Números 11, apenas três dias após partir do Sinai, o povo começa a murmurar. “E o povo queixou-se, falando o que era mau aos ouvidos do Senhor.” Deus responde com fogo que consome a extremidade do arraial. Moisés intercede, o fogo cessa, e o lugar é chamado Taberá (incêndio).
Mas a murmuração não para. A “mistura de gente” (provavelmente egípcios e outros que saíram com Israel) começa a ter grande desejo por comida, influenciando os israelitas: “Quem nos dará carne a comer? Lembramo-nos dos peixes que no Egito comíamos de graça, dos pepinos, dos melões, dos porros, das cebolas e dos alhos. Mas, agora, a nossa alma se seca; coisa nenhuma há senão este maná diante dos nossos olhos.”
Que ingratidão! Deus os alimentava sobrenaturalmente com maná todos os dias — pão do céu — mas eles desprezavam este milagre, romantizando a escravidão no Egito. Esqueciam os açoites, o trabalho forçado, o genocídio de seus filhos. Lembravam apenas da comida.
Moisés, esmagado pelo peso da liderança e pelas queixas constantes, clama a Deus em desespero: “Por que fizeste mal a teu servo?… De onde teria eu carne para dar a todo este povo?… Eu só não posso levar a todo este povo, porque me é pesado demais. Se assim fazes comigo, mata-me, peço-te… e eu não veja o meu mal.”
Deus responde com compaixão e provisão. Ordena que Moisés reúna 70 anciãos, sobre os quais Deus colocaria do Espírito que estava sobre Moisés, para que compartilhassem o fardo da liderança. Liderança não deveria ser solitária.
Quanto à carne, Deus promete dar — não por um dia, mas por um mês inteiro, “até vos sair pelos narizes e se vos tornar em nojo”. Eles teriam o que pediram, mas de forma que se tornaria maldição, não bênção.
Moisés duvida: “Seiscentos mil homens de pé é este povo… degolar-se-ão para eles ovelhas e vacas?… ou ajuntar-se-ão para eles todos os peixes do mar?” Deus responde: “Porventura, tem-se encurtado a mão do Senhor?”
Deus envia codornizes em abundância — “dois côvados de altura sobre a terra” ao redor do arraial. O povo passa todo aquele dia, toda a noite e todo o dia seguinte ajuntando codornizes. O que menos ajuntou colheu dez ômeres (mais de 2 toneladas!).
Mas “estando a carne ainda entre os seus dentes, antes que fosse mastigada, se acendeu a ira do Senhor contra o povo, e feriu o Senhor o povo com uma praga mui grande.” O lugar foi chamado Quibrote-Hataavá (sepulcros da cobiça), “porquanto ali enterraram o povo que teve o desejo”.
A cobiça os matou. Deus deu o que pediram, mas enviou magreza às suas almas (Salmo 106:15).
Durante este episódio, dois homens, Eldade e Medade, que haviam ficado no arraial, começaram a profetizar quando o Espírito veio sobre os 70 anciãos. Josué, zeloso por Moisés, pede que os proíba. Moisés responde com humildade admirável: “Tens tu ciúmes por mim? Tomara todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor pusesse o seu Espírito sobre eles!”
Em Números 12, Miriã e Arão criticam Moisés por causa de sua esposa cushita (etíope). Mas a verdadeira questão era inveja da liderança: “Porventura, falou o Senhor somente por Moisés? Não falou também por nós?”
A Escritura registra: “E era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra.” Moisés não se defendeu.
Deus intervém diretamente, convocando Miriã, Arão e Moisés ao Tabernáculo. Declara que fala com profetas por visões e sonhos, “mas não é assim com o meu servo Moisés… boca a boca falo com ele… por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?”
A nuvem se retira, e Miriã está leprosa, “branca como a neve”. Arão implora perdão, e Moisés intercede: “Ó Deus, rogo-te que a cures.” Deus a cura, mas ela fica sete dias fora do arraial. Todo o povo espera por ela — a murmuração de um líder afeta toda a comunidade.
Em Números 13, Israel chega às portas de Canaã. Deus ordena que Moisés envie 12 espias, um de cada tribo, para explorar a terra. Durante 40 dias, eles percorrem Canaã, observando cidades, habitantes, frutos.
Retornam trazendo um cacho de uvas tão grande que dois homens o carregam numa vara, além de romãs e figos. Confirmam: “Verdadeiramente mana leite e mel, e este é o seu fruto.”
Mas então vem o “porém”: “Porém o povo que habita nessa terra é poderoso, e as cidades, mui grandes e fortificadas… também vimos ali os filhos de Anaque” (gigantes).
Calebe tenta silenciar o povo: “Certamente prevaleceremos contra ela e a possuiremos.” Mas os outros dez espias espalham “mau relatório”: “Não poderemos subir contra aquele povo, porque é mais forte do que nós… a terra… devora os seus moradores; e todo o povo que vimos nela são homens de grande estatura. Também vimos ali gigantes… e éramos aos nossos olhos como gafanhotos e assim também éramos aos seus olhos.”
Dez espias viram os gigantes; dois (Josué e Calebe) viram Deus. Dez focaram no problema; dois focaram na promessa.
Em Números 14, toda a congregação chora a noite inteira e murmura contra Moisés e Arão: “Quem dera tivéssemos morrido na terra do Egito! Ou, ainda, quem dera morrêssemos neste deserto!… Não nos seria melhor voltarmos ao Egito?”
Chegam ao ponto de querer apedrejar Moisés e Arão e escolher outro líder para voltar ao Egito. Josué e Calebe rasgam suas vestes e clamam: “A terra… é terra muitíssimo boa. Se o Senhor se agradar de nós, então, nos porá nesta terra e no-la dará… tão-somente não sejais rebeldes contra o Senhor e não temais o povo dessa terra… o Senhor é conosco; não os temais.”
Mas o povo quer apedrejá-los. Então a glória do Senhor aparece no Tabernáculo.
Deus declara a Moisés: “Até quando me provocará este povo?… Feri-lo-ei com pestilência e o rejeitarei.” Moisés intercede poderosamente, apelando para a glória de Deus entre as nações e para Sua misericórdia.
Deus perdoa, mas estabelece consequências: “Certamente nenhum dos homens que viram a minha glória e os meus sinais… e me tentaram estas dez vezes… verá a terra que jurei a seus pais.” Toda aquela geração de 20 anos para cima morreria no deserto. Apenas Josué e Calebe entrariam na Terra Prometida.
Os dez espias incrédulos morrem imediatamente de praga. E Deus decreta: conforme os 40 dias que espiar am a terra, Israel vagaria 40 anos no deserto — um ano por cada dia — “até que os vossos cadáveres se consumam neste deserto”.
Ao ouvirem isto, o povo se arrepende e decide subir para conquistar a terra. Moisés adverte: “Não subais, pois o Senhor não está no meio de vós.” Mas presunçosamente sobem sem a Arca e sem Moisés. São derrotados pelos amalequitas e cananeus.
Estes capítulos revelam o ciclo trágico da incredulidade: murmuração, ingratidão, rebelião, e finalmente, presunção. Israel estava a apenas 11 dias de jornada de Canaã, mas sua incredulidade os condenou a 40 anos no deserto.
Propósito do dia:
Reconhecer que murmuração e incredulidade desagradam profundamente a Deus, que devemos focar em Suas promessas e não nos obstáculos, e que presunção sem a presença de Deus leva à derrota.
Oração:
Senhor, perdoa-me por toda murmuração e ingratidão. Ajuda-me a focar em Tuas promessas, não nos gigantes. Que eu seja como Josué e Calebe, crendo que se Tu estás comigo, posso vencer qualquer obstáculo. Livra-me da incredulidade que me impede de entrar em Tuas promessas. Que eu nunca aja presunçosamente sem Tua presença. Em nome de Jesus, amém.






