Introdução
O livro de Gênesis, primeira obra do cânon hebraico e da Torah, estabelece os fundamentos teológicos, cosmológicos e antropológicos sobre os quais toda a narrativa bíblica se desenvolve. Os três primeiros versículos do capítulo inaugural não apenas introduzem o relato da criação, mas também articulam uma cosmovisão radicalmente distinta das mitologias do Antigo Oriente Próximo, apresentando um Deus transcendente, soberano e criador ex nihilo.
Este artigo propõe uma análise exegética detalhada de Gênesis 1:1-3, examinando suas dimensões lexicais, sintáticas, literárias e teológicas. Utilizaremos ferramentas da crítica textual, da linguística hebraica e da teologia bíblica sistemática para demonstrar como esses versículos fundamentam a doutrina da criação e estabelecem paradigmas hermenêuticos essenciais para a interpretação do restante das Escrituras.

1. Análise Lexical e Sintática de Gênesis 1:1
1.1. O Texto Hebraico
בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ
Bereshit bara Elohim et hashamayim ve’et ha’aretz
1.2. Estrutura Gramatical
O versículo apresenta uma construção sintática direta, embora contenha nuances exegéticas significativas:
בְּרֵאשִׁית (Bereshit) – “No princípio”
- A preposição בְּ (bet) indica tempo ou circunstância.
- רֵאשִׁית (reshit) deriva da raiz רֹאשׁ (rosh), significando “cabeça” ou “começo primordial” .
- A forma constructa sugere não um ponto temporal absoluto, mas o início de uma sequência criativa.
בָּרָא (bara) – “criou”
- Verbo Qal perfeito, terceira pessoa masculino singular.
- Raiz ברא (bara), exclusivamente usada na Bíblia Hebraica com Deus como sujeito, indicando ação criativa divina sem precedentes.
- Teologicamente, implica criação ex nihilo (do nada), distinção fundamental em relação às cosmogonias politeístas .
אֱלֹהִים (Elohim) – “Deus”
- Forma plural intensiva, porém com verbo singular, afirmando a unidade divina.
- O uso do plural majestático enfatiza a transcendência, poder e plenitude de Deus.
אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ (et hashamayim ve’et ha’aretz) – “os céus e a terra”
- Partícula de objeto direto אֵת (et) marca os objetos criados.
- Merismo: expressão que indica totalidade através de extremos opostos (céus = superior; terra = inferior).
- Abrange toda a realidade criada, sem exceção.
1.3. Questões Hermenêuticas
Estudiosos debatem se Gênesis 1:1 funciona como:
- Declaração independente: Afirmação absoluta da criação inicial.
- Cláusula temporal subordinada: “Quando Deus começou a criar…” (seguindo a tradução de estudiosos como Rashi).
A tradição majoritária, sustentada por evidências sintáticas e teológicas, favorece a primeira interpretação, compreendendo o versículo como declaração teológica fundamental da criação absoluta por Deus .
2. Exegese de Gênesis 1:2
2.1. O Texto Hebraico
וְהָאָרֶץ הָיְתָה תֹהוּ וָבֹהוּ וְחֹשֶׁךְ עַל־פְּנֵי תְהוֹם וְרוּחַ אֱלֹהִים מְרַחֶפֶת עַל־פְּנֵי הַמָּיִם
2.2. Análise Detalhada
וְהָאָרֶץ הָיְתָה תֹהוּ וָבֹהוּ – “E a terra era sem forma e vazia”
- הָיְתָה (hayetah): Verbo “ser/estar” no Qal perfeito.
- תֹהוּ וָבֹהוּ (tohu vavohu): Expressão aliterativa única descrevendo caos primordial.
- תֹהוּ (tohu): Vazio, desolação, ausência de ordem (cf. Isaías 34:11; Jeremias 4:23) .
- בֹהוּ (bohu): Termo raro, reforçando o conceito de vazio qualitativo.
Não se trata de “matéria informe” platônica, mas de uma condição inicial de desorganização que Deus ordena progressivamente.
וְחֹשֶׁךְ עַל־פְּנֵי תְהוֹם – “E trevas sobre a face do abismo”
- חֹשֶׁךְ (choshek): Trevas, ausência de luz.
- תְהוֹם (tehom): Abismo primordial, águas profundas.
- Cognato acadiano Tiamat (divindade caótica babilônica), porém aqui desprovido de caráter divino.
- Desmitologização radical: as águas não são deidades, mas criação submissa a Deus.
וְרוּחַ אֱלֹהִים מְרַחֶפֶת עַל־פְּנֵי הַמָּיִם – “E o Espírito de Deus pairava sobre as águas”
- רוּחַ (ruach): Termo polissêmico (espírito/vento/fôlego).
- Tradições judaicas e cristãs interpretam como Espírito Santo, agente ativo na criação.
- מְרַחֶפֶת (merachefet): Particípio Piel feminino, “pairar/mover-se” (cf. Deuteronômio 32:11 – águia sobre seus filhotes).
- Imagem de proteção, movimento intencional, preparação criativa.
2.3. Implicações Teológicas
Gênesis 1:2 não descreve um “caos eterno”, mas uma etapa inicial da atividade criadora divina. A presença do Espírito indica imanência divina no processo criativo, antecipando a ordem que será estabelecida nos versículos seguintes.
3. Análise de Gênesis 1:3
3.1. O Texto Hebraico
וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים יְהִי אוֹר וַיְהִי־אוֹר
Vayomer Elohim yehi or vayehi-or
3.2. Estrutura e Significado
וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים – “E disse Deus”
- Introduz o método criativo divino: a palavra performativa.
- אָמַר (amar): “dizer”, indicando comunicação intencional e eficaz.
יְהִי אוֹר – “Haja luz”
- יְהִי (yehi): Jussivo Qal, terceira pessoa, expressando mandamento ou desejo divino.
- אוֹר (or): Luz, princípio de ordem, conhecimento e vida.
- Não se refere aos luminares (criados no dia 4), mas à luz como realidade física e metafísica.
וַיְהִי־אוֹר – “E houve luz”
- Waw consecutivo com Qal imperfeito: forma narrativa hebraica indicando consequência imediata.
- A criação obedece instantaneamente à palavra divina.
3.3. Teologia da Palavra Criadora
A criação pela palavra distingue radicalmente a cosmogonia hebraica das mitologias circundantes:
- Transcendência divina: Deus não luta contra forças caóticas (como Marduk vs. Tiamat no Enuma Elish).
- Autoridade absoluta: A palavra divina é suficiente para trazer à existência.
- Logos criador: Fundamento para a teologia joanina do Logos (João 1:1-3).
4. Contexto Literário e Histórico-Cultural
4.1. Estrutura Literária de Gênesis 1
O capítulo segue um padrão poético-litúrgico:
- Dias 1-3: Separação e formação de domínios (luz/trevas, águas/firmamento, terra/mar).
- Dias 4-6: Preenchimento dos domínios (luzeiros, criaturas aquáticas/aéreas, animais terrestres/humanidade).
Este paralelismo demonstra intencionalidade literária, sugerindo propósito teológico-didático, não meramente cronológico.
4.2. Comparação com Cosmogonias do Antigo Oriente Próximo
Enuma Elish (Babilônia)
- Criação emerge de conflito violento entre deuses.
- Marduk derrota Tiamat e cria o mundo de seu cadáver.
Gênesis 1
- Criação é ato soberano e pacífico.
- Nenhuma luta cósmica; tudo responde à palavra divina.
Esta oposição evidencia a polêmica teológica: Israel rejeita politeísmo e afirma monoteísmo ético .
5. Interpretações Teológicas
5.1. Criação Ex Nihilo
Embora o termo latino seja posterior, a doutrina está implícita:
- Nada preexiste a Deus.
- Toda realidade depende ontologicamente de Sua vontade criadora.
5.2. Doutrina Trinitária
Elementos precursores da Trindade:
- Deus Pai: Sujeito da criação.
- Espírito: Agente ativo (v. 2).
- Palavra: Meio criador (v. 3), prefiguração do Logos cristológico.
5.3. Ordem e Bondade da Criação
A progressão do caos à ordem reflete:
- Racionalidade divina.
- Bondade intrínseca da criação material (contra dualismos gnósticos).
6. Aplicações Hermenêuticas Contemporâneas
6.1. Ciência e Fé
Gênesis 1:1-3 não compete com cosmologia científica, mas estabelece fundamentos teológicos:
- Deus como Causa Primeira.
- Racionalidade do universo (pressuposto da ciência).
- Valor intrínseco da criação.
6.2. Ecoteologia
A criação ordenada e “muito boa” fundamenta responsabilidade ecológica cristã, rejeitando tanto exploração predatória quanto panteísmo.
Conclusão
Gênesis 1:1-3 constitui fundamento exegético, teológico e hermenêutico insubstituível. Através de análise lexical rigorosa, contextualização histórico-literária e reflexão teológica, demonstramos que esses versículos:
- Afirmam a soberania absoluta de Deus na criação.
- Rejeitam cosmogonias politeístas.
- Estabelecem paradigmas para compreensão bíblica da realidade.
- Antecipam desenvolvimentos teológicos posteriores (Trindade, Cristologia).
A exegese acadêmica, longe de diminuir o texto, revela sua profundidade inesgotável, convidando estudiosos e crentes a contínua contemplação do mistério da criação divina.
Referências Bibliográficas Sugeridas:
- Wenham, Gordon J. Genesis 1-15. Word Biblical Commentary.
- Walton, John H. The Lost World of Genesis One.
- Von Rad, Gerhard. Genesis: A Commentary.







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